23.6.11

Ele, dela.


Ela sabia que era um purgante, mas tinha suas qualidades. Era fácil de se ouvir, de se olhar; suas veias foram preenchidas com o mais puro romantismo que se tem relato. Já suas mãos e seus movimentos foram dotados de uma sensualidade implícita por poucos experimentada. Já ele era livre, vivia em alta velocidade. Lindo era sua definição. Lindo, sem mais palavra alguma. Escolhia sua presa e tal qual águia, rasgava o céu e comi-a sem pedir permissão ou usando de qualquer tipo de cavalheirismo.

Engraçadinho que só, numa noite fria, o destino resolveu entrelaçar esses dois. Ele a escolhera, e foi em sua direção, rasgando o céu. Ela, que sabia demonstrar interesse sutilmente, o envolveu no seu jogo durante toda a noite. Madrugada adentro foi quando aconteceu o choque de seus corpos, que fez estrondo semelhante a um encontro planetário.

Gargalhadas do destino à parte, o choque planetário repetiu-se, e repetiu-se e repetiu-se. Em seus curtos intervalos de tempo, ela se mostrava amável e doce, mas sempre receosa, com quase uma dezena de pés atrás. Ele estava na sua pose, apenas recebendo os carinhos, os afagos, as palavras doces – que não eram poucas –, as ligações e as mensagens que faziam seu telefone extrapolar as 256 cores de sua configuração original.

Ele nunca refletiu metade do que ela fazia, mas por mais estranho que isso parecesse. A freqüência do choque entre os corpos se manteve por algumas semanas. Reduzindo, reduzindo. Em seu ultimo estrondo – que não fez nada além de um ruído esquisito – algo tinha dado errado. Aliás, não deu. Era o Ela-purgante aparecendo rindo na cara do Ele-egoísta. Foi entediante.

Depois disso, ele desapareceu. Mas desapareceu um pouco antes que a amabilidade, a doçura, os afagos e as cores extras de seu celular sumiram – ficaram com ela, dezenas de pés atrás. Ele lhe dera as costas, esperando ser requisitado de volta. Ela correu pro lado contrário. Lá tinha mais elas; tinha eles menos atléticos, mas com um fôlego mais longo; tinha colisões mais fortes, alinhamentos planetários e até algumas explosões estelares.

Ela ainda é um purgante. Ele ainda é egoísta. Ela ainda tem sensualidade implícita. Ele ainda escolhe suas presas e rasga o céu para come-las, sem pedir permissão ou usar qualquer tipo de cavalheirismo. Ela agora compartilha seu romantismo. Ele ainda vive em alta velocidade. Ela está em outra galáxia. Ele sente saudade. Ela não. Ele... Ah, nem eu sei mais.

3 comentários:

  1. Sem palavras Felipe; lírico, sutíl e envolvente!!!

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  2. nossa, lindo, adorei. Muito bom.

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